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CAPA E CONTRACAPA

Arco Music apresenta: Luciano Leães Trio "Live at Pianistico Festival"

Por Márcio Grings

   Os estranhos dias vividos durante o triênio 2020/21/22 ficarão na história, pois cada um de nós teve sua cota de sacrifício. Durante esse período, por inúmeras vezes troquei telefonemas e mensagens com Luciano Leães, dividindo dilemas e compactuando aspirações. Ao longo da pandemia, em meio a pausa de apresentações ao vivo, o músico fez diversos lives streamings e participou de esparsos shows presenciais. O convite para tocar ao vivo da 3.ª edição do Pianístico o animou, como se fosse ‘o ensaio de orquestra’ para um retorno aos palcos. O festival realizado entre os dias 3 e 6 de dezembro de 2020, em Joinville, Santa Catarina, agrupa a maioria do material deste álbum. 

     Depois soube que a cada nova junção do evento realizado no Sul do Brasil aglutina a nata dos músicos locais e sul-americanos, além de trazer artistas de várias partes do mundo. Nesse importante intercâmbio, gêneros se mesclam — erudito, jazz, blues, música popular brasileira etc. Inicialmente, Luciano Leães não pretendia lançar um álbum ao vivo dessa apresentação, mas o trabalho acabou materializado graças ao incentivo do produtor Russ Ragsdale (Nashville, TEN) e de Tom Worrell (New Orleans, LA), pianista residente em New Orleans. Os norte-americanos ficaram entusiasmados com o que ouviram, convencendo o músico brasileiro a lançar o concerto como um álbum ao vivo. Eles estavam absolutamente certos...   

O cenário de isolamento e restrições imposto pelo confinamento social não permitiu que Luciano Leães (piano e voz), Edu Meirelles (baixo) e Ronie Martinez (bateria) fizessem ensaio algum e, assim, eles escolheram o caminho da improvisação, o que atribuiu interessantes ineditismos ao registro. O resultado dessa captação ressoa como um conjunto de canções deslocado no tempo, transversal, oferecendo um passaporte para qualquer lugar ou época, basta acionarmos nossa memória afetiva, principalmente, se assim como eu, você gosta de blues, jazz, de música latina ou instrumental.

A matriz africana dos povos americanos faz parte da nossa teia social. Esse sincretismo nos forjou, uma mistura recorrente em todas as pontas do continente, o que nos leva a questionar, por exemplo: há de fato tanta diferença entre o maracatu de Pernambuco e o Second Line das ruas de New Orleans? Acredito mais na similaridade entre ambos, assim como no flerte mútuo entre o samba e o jazz que temperou a música em várias partes do mundo. Apesar disso tudo, talvez pela ótica de muitos, a pergunta ainda seria: quais fatores levariam um garoto no Sul do Brasil a se tornar um pianista ligado ao blues? Mesmo no país do samba, pulverizado de inúmeros sobretons regionais, se olharmos para a expansão do mercado discográfico nos anos 1950/60/70, é necessário relembrar que esse fenômeno mudou o acesso à música para muitos. Não diferiu com os discos advindos do mercado norte-americano — centenas de milhares de LPs giraram nos toca-discos brasileiros, chegando até às mãos de milhões de pessoas. Assim, misturados aos títulos de música brasileira, italiana, francesa e sul-americana etc, lá estavam os vinis de jazz, blues e soul.

Em um cenário semelhante a esse, certo garoto começou a prestar mais atenção no que ouvia nas caixas de som. Somando-se a isso, seus tios pianistas propagavam ritmos e canções nas festas familiares, principalmente na casa de seus avós Odila e Maneco, compradores de álbuns de tango, apaixonados por uma diversidade de estilos regionais e que frequentemente transformavam a sala de casa em um salão de baile. Afinal, a família Leães sempre foi muito musical, seja como ouvintes ou músicos amadores. A ponte musical absorvida entre a adolescência e a vida adulta de Luciano Leães o transformou. Morador de Porto Alegre, RS, com cerca de apenas 20 anos, o jovem pianista já dividiria o palco com nomes como Carey Bell, Hubert Sumlin e John Primer, para depois, ao longo dos anos realizar shows e gravar com Bob Stroger, Annika Chambers, Wee Willie Walker, Magic Slim, Tia Carroll, Earl Thomas, entre outros.

Os shows do músico detêm como característica promover uma conexão direta com a ambiência de cada local. Isso lega singularidades ao que é tocado noite após noite. Já o assisti ao vivo algumas vezes e cada noite sempre foi diferente da outra. Essa singularidade pode ser percebida no setlist de Joinville, ainda mais quando eu soube que o repertório do show foi discutido e ensaiado primeiramente à distância e, afinado só durante a viagem, no carro.

Além da apresentação presencial no Pianístico Festival (que batiza esse trabalho), duas faixas bônus – captadas em lives realizadas durante a pandemia — fecham o material: uma delas registrada em apresentação virtual no Jim Beam Bourbon & Blues Fest, e a outra foi gravada no Estúdio do Arco, num projeto da FAC Digital, financiado com recursos públicos para ajudar músicos locais durante a pandemia.  

O ouvinte pode ter certeza: “Live At Pianistico” é um símbolo de como a música pode incorporar aquilo que ela quiser ser, se conectando às diversas fontes de inspiração, e mesmo assim soando como algo original e genuíno. 

Turntable from Above
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